— Quer ir ao cinema? — Quero qual filme? — O Anjo Exterminador... do Buñnuel. — Preto-e-branco! Deste diretor complicado! Será que você não escolhe um outro filme? Agora já chega! Quinta e última tentativa. Supla e Bárbara, com certeza, fariam mais sucesso. Também quem manda curtir pérolas cinematográficas!? O jeito é ir sozinho... Chego adiantado no espaço Unibanco. Pra passar o tempo, vou até a livraria e procuro um cartão-postal de um filme nacional, que será enviado a uma amiga em Paris, que o pregará num mural de um cineclube do Quartier-Latin. Heróica contribuição para a divulgação do cinema brasileiro! Vou até o bar, tomo um café com um pão de batata e reparo numa menina que eu conheço de um filme do Truffaut; tem uma outra, de cabelos encaracolados, que já encontrei duas vezes na fila do Lavoura Arcaica; tem também uma japonesa de um filme do Ozu; procurando mais atentamente, acharia uma russa de um filme do Tarkovski... Já fico imaginado um roteiro: três lindas meninas apaixonadas por filmes antigos vêem, de relance na saída do cinema, três anjos (Yasujiro, François e Andrei). Enlouquecidas, percorrem os cinemas da cidade em busca dos anjos. Olho o resto do público: um colegial matando aula, uma simpática senhora sacrificando a hora do chá, um executivo neurótico roendo as unhas – todos nós unidos por uma mesma condição: cinematograficamente sós. A campainha toca, o público entra, as luzes são apagadas, o filme começa. Na primeira cena no, no portão, um garçom discute com seu chefe (o maitre), recusa-se a trabalhar e parte. O maitre, um pouco enfurecido, retorna à enorme mansão e continua os preparativos para a festa de logo mais à noite. Sem nenhuma razão aparente, os empregados da mansão (com exceção do maitre) vão indo embora. Simultaneamente, vão entrando os convidados: riquíssimos burgueses. O dono da casa os recebe, guarda seus casacos e os leva até a sala de jantar. No primeiro prato, o maitre tropeça e prato espatifa-se. Gargalhada geral. O jantar prossegue, as pessoas conversam animadamente, cada um fala um pouco da vida do outro. Acabado o jantar, todos encaminham-se até uma sala, onde ouvirão uma das convidadas tocar piano. Depois do recital, os convidados, cada um por si, manifesta a intenção de ir embora. Todavia, algo estranho (ainda não claramente percebido) os impede de sair; um a um, vão deitando onde lhes parece confortável (a mesa, o chão, o sofá) e acabam dormindo. Amanhece, eles tomam o café improvisadamente preparado, e aí não restam dúvidas, há uma misteriosa barreira que os aprisiona. Irão ficar dentro da enorme mansão, num processo de decadência até atingir um estágio de putrefação total (dois cadáveres fedem). No final, cogitam em comer carne humana. O Anjo Exterminador é, também, um filme sobre a solidão. Seus personagens não conseguem conviver entre si por um longo período (quando fazem isso, matam-se uns aos outros) e não conseguem ficar sozinhos. São seres divididos, desunificados, verdadeiros cacos humanos que se misturam para tentar suportar a própria existência. De outro lado, nós os solitários cinematográficos, durante o filme, de um jeito ou de outro, acabamos nos encontrando; nos sentimos plenos, inteiros, recheados com um novo olhar sobre a vida. Isso me faz pensar em algo que Kurosawa disse, olhando para o monte Fuji:” Não será o cinema, em sua essência, um verdadeiro exercício de amizade?”El Angel Exterminador, 1962. Distribuído em Vídeo pela Sagres. © Prof. Dr. Guilherme Assis de Almeida - Advogado, Dr. em Filosofia do Direito pela USP e Professor de Filosofia do Direito e I.E.D. Compre seu Livro pela Internet. Qualidade, Conforto, Segurança e Economia.
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