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MUNDO DOS FILÓSOFOS
O Problema do Tempo em Santo Agostinho
1. A RELEVÂNCIA DO TEMA:
Quando nos propomos a
falar sobre o “tempo” enquanto um “problema” ou ainda sobre “o problema do
tempo”, o senso comum quase que de imediato se mostra perplexo, num misto
de estranheza e sarcasmo. Desde quando o tempo é um problema? Existe de
fato relevância nesse tema que justifique uma pesquisa acadêmica? São
questionamentos não raros e maculados pelo conhecimento comum, que tende
a ver as coisas de forma periférica, como quem vê apenas a ponta de um ice
Berg e, julga, ingenuamente, conhecê-lo em sua totalidade, considerando
portanto desnecessário depreender esforço reflexivo sobre ele.
De fato, a questão do
“tempo” parece, e somente parece, ser extremamente simples e conhecida de
todos, o próprio filósofo Agostinho de Hipona reconhece isso quando
afirma:
Que assunto mais familiar e mais
batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos
compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando
dele nos falam
[1].
Apenas como recurso didático e para comprovação das palavras de Agostinho,
citaremos um texto canônico muito conhecido que versa sobre o tempo:
Tudo tem seu
tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu: há
tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de arrancar
o que se plantou, tempo de matar e tempo de curar, tempo de derribar e
tempo de edificar, tempo de chorar e tempo de rir, tempo de prantear e
tempo de saltar de alegria, tempo de espalhar pedras e tempo de juntar
pedras, tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar, tempo de
buscar e tempo de perder, tempo de guardar e tempo de deitar fora, tempo
de rasgar e tempo de coser, tempo de estar calado e tempo de falar,
tempo de amar e tempo de aborrecer, tempo de guerra e tempo de paz
[2].
O
que há de intrigante e difícil nessas palavras transcritas do sábio?
Absolutamente nada. Tudo está perfeitamente claro e respondido, até que se
pergunte: O que é o Tempo?
Diante dessa pergunta que sabemos e ao mesmo tempo não sabemos a resposta,
temos que assumir uma postura cautelosa e nutrir um forte desejo de
refletir seriamente sobre o tema, como fez Agostinho quando perguntado
pela sua mente brilhante:
Se ninguém me perguntar eu sei,
porém, se quiser explicar a quem me perguntar, já não sei
[3].
Apenas esta citação de um dos maiores filósofos de sua época, e não só de
sua época mas de toda história da filosofia, colocando-se humildemente
diante do gigantismo do “problema do tempo”, de suas implicações e
desafios, já seria suficientemente aceitável como prova da relevância e
dificuldade do tema. Queremos porém, como se não bastasse, argumentar
ainda com as palavras de Edmundo Husserl (1859-1938-Lições):
A análise da
consciência do tempo é uma antiqüíssima cruz da psicologia descritiva e
da teoria do conhecimento. O primeiro que sentiu a fundo as poderosas
dificuldades que aqui residem e que com elas lutou até quase ao
desespero foi Santo Agostinho. Os capítulos 14-28 do Livro XI das
Confissões devem ainda hoje ser profundamente estudados por quem se
ocupe com o problema do tempo. Portanto, nestas coisas, a época moderna,
orgulhosa do seu saber, nada mais grandioso e mais considerável trouxe
do que este grande e, na verdade, incansável pensador.
É
pertinente lembrar ainda que o problema do tempo foi abordado e objeto de
extremo esforço intelectual de vários pensadores reconhecidos pelo
brilhantismo de suas mentes em suas respectivas épocas e áreas de
conhecimentos, dos quais podemos citar rapidamente: Parmênedes, Heráclito,
Demócrito, Platão, Aristóteles, Isaac Newton, Leibniz, Kant, Hegel, Albert
Einstein,Henri Bérgson, Martin Haidegeer e tantos outros.
2. A SUBJETIVIDADE DO
TEMPO
Como já demonstramos anteriormente, a aparente
simplicidade do tema e o suposto conhecimento que temos acerca do tempo
acabam criando uma série de barreiras que dificultam sua compreensão.
Alguns têm sugerido que esta dificuldade está
diretamente relacionada com o nosso grau de envolvimento e a estreita
relação do ser humano com o tempo. Somos seres temporais, isto é, vivemos
“dentro do tempo”, e já assim fomos criados. Esta dificuldade de
compreensão logo desapareceria, se pudéssemos, transcender desta
realidade, nos tornando, de alguma forma, um observador externo, alheio ao
tempo. Devemos notar que esta é também a visão moderna de tempo, algo que
é exterior ao homem, isto é, uma visão objetiva de um tempo que existe,
independentemente da existência do homem.
O cerne do pensamento Agostiniano inverte esta
perspectiva e levanta entre outras as seguintes questões: E se a
“realidade” for inversa? Ou seja, se ao invés de vivermos dentro do tempo
for ele nosso hóspede? Hóspede de nossas consciências? Mais ainda, produto
de nossas consciências? Criação de nossas mentes? E, finalmente, o tempo
existe objetivamente?
O pensamento geral de Agostinho e,
conseqüentemente, seu pensamento sobre o tempo tem como base fundamental
sua teoria da verdade, que consiste primariamente em entender a verdade
como “aquilo que é”, lógica peculiar de sua época. É fazendo uso
desta lógica e aplicando sua idéia da verdade na sua teoria do tempo que
Agostinho chega a duas conclusões muito importantes.
2.1. A primeira delas é decorrente de
sua análise lógica acerca da existência do passado, do presente e do
futuro. Afirma ele:
Que é, pois, o tempo? Quem poderá
explicá-lo claro e brevemente? [...] e que modo existem aqueles dois
tempos – o passado e o futuro – se o passado já não existe e o futuro
ainda não veio? Quanto ao presente, se fosse sempre presente, e não
passasse para o pretérito, como poderíamos afirmar que ele existe, se a
causa da sua existência é a mesma pela qual deixará de existir?
[4].
Agostinho desconhecia, pelo menos filosoficamente, a existência de um
tempo objetivo. Ele argumentava logicamente a favor da não existência
objetiva do passado e do futuro, visto que um já passou
(referindo-se obviamente ao pretérito), logo já não é, o que
se segue que não é verdadeiro afirmar existir o passado. Quanto ao
futuro, este ainda não veio, logo ainda também não é, sendo,
por conseqüência, tão falso quanto afirmar a existência do passado afirmar
existência do futuro. Quanto ao presente, a única forma que o
reconhecemos como presente é quando contrastado em relação aos outros
dois tempos, isto é, passado e futuro, caso contrário o que seria? E se a
causa da sua existência é a mesma pela qual deixará de existir, ou seja,
quando deixar de ser presente e tornar-se passado, logo, também não é
em si mesmo, decorrendo daí lógica e igualmente ser tão falso afirmar
a existência do presente quanto afirmar a existência do passado e do
futuro.
2.2. Vejamos agora a
segunda conclusão que chega Agostinho, como conseqüência de sua
primeira reflexão, acerca da existência do tempo. Afirma ele:
O que agora transparece é que,
não há tempos futuros nem pretéritos. É impróprio afirmar: Os tempos são
três: Pretérito, presente e futuro. Mas talvez fosse próprio dizer: os
tempos são três: presente das coisas passadas, presente dos presentes,
presente dos futuros. Existem pois estes três tempos na minha mente
que não vejo em outra parte (grifo meu) : lembrança presente das
coisas passadas, visão presente das coisas presentes e esperança
presente das coisas futuras. Se me é lícito empregar tais expressões,
vejo então três tempos e confesso que são três
[5].
Se
formos cuidadosos em observar esta citação de Agostinho, logo perceberemos
que existe uma espécie de primazia do presente em relação ao passado e ao
futuro, esta primazia é de fato digna de um desenvolvimento de mais
elaborado, o que não ocorrerá aqui, por razões obvias, entretanto queremos
destacar aqui, como segunda conclusão de Agostinho, relativamente à
sua teoria do tempo, é o aspecto subjetivo que ele atribui
ao tempo. O tempo em sua teoria não é um “ente” independente do homem e
objetivo, mas, pelo contrário, existe tão somente dentro de nossas mentes
e em nenhum outro lugar mais. Isto equivale afirmar que o tempo existe por
causa de nossas consciências, isto é, não existindo o homem, não existindo
sua consciência, o tempo também não mais existirá, porque é lá que não
somente e unicamente existe o tempo como também é lá, na consciência, na
mente do homem, onde tem início e onde há também sua tripartição em
passado, presente e futuro e insistentemente repetimos, na mente humana e
em nenhum outro lugar.
3. A RETOMADA DO
PENSAMENTO AGOSTINIANO DO TEMPO
Iniciamos esta pequena reflexão sobre o problema do tempo em Agostinho
argumentando em torno da importância do tema, bem como demonstrando que
grandes pensadores, nas mais variadas áreas do conhecimento e em épocas
distintas tiveram que abordar a questão do “tempo”, talvez, quem sabe,
inquiridos pelas suas próprias consciências.
Agora, já em palavras conclusivas, queremos lembrar que o pensamento de
Agostinho de Hipona não ficou cristalizado em sua época, como bem afirmou
Edmund Husserl. Todas que o sucederam e quiseram abordar o problema do
tempo, tiveram que abrir sua cartilha, ainda que para discordar. O cerne
de sua teoria do tempo tem sido ratificada contemporaneamente por Henri
Bérgson, eficiente opositor do positivismo. Segundo ele, o positivismo não
se manteve fiel à sua promessa de retratar a verdade, primordialmente, no
que tange ao problema do tempo. O tempo especializado, cronológico, não é
o tempo de nossas consciências, que é o tempo real, o tempo concreto. Esta
denúncia é feita sob as bases da teoria agostiniana do tempo,
evidentemente acrescida de novas descobertas. E com ele, Bergson,
concluímos:
Toda consciência é memória-conservação, acumulação do passado no
presente e antecipação do futuro
[6].
Duração pura, duração vivida,
duração real, duração qualidade, duração completa, todas são qualidades
próprias dos estados psíquicos que se sucedem sem justaposição
[7].
Sim, eu creio que nossa vida
passada está aí conservada nos mínimos detalhes, e tudo o que nós
percebemos, passamos, desejamos desde o primeiro despertar da nossa
consciência, persiste infinitamente
[8].
© Copyright
2005 -
Professor Fábio Correia
- Mestrando em Filosofia pela Universidade Federal de Pernambuco - UFPE.
Licenciado em Filosofia pela Unicap. Licenciado em Educação Religiosa pelo
SPN.
© Copyright
1997-2005
Elaborada em
26/10/2005
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