ATAQUE TERRORISTA AOS EUA
O conjunto de atentados terroristas aos EUA, presenciados por expectadores do mundo inteiro, cuja autoria ainda não foi identificada, é um convite à reflexão. Temos, em frações de segundos, minutos e horas, além de milhares de mortos e tragédias vivas em andamento, também grandes ícones destroçados. O World Trade Center é o símbolo da pujança econômica americana. Também o símbolo da inteligência do governo e do poderio militar americano (Pentágono) viu-se atingido pelas ações terroristas. Dois pontos nevrálgicos de um sistema que vem se construindo em escala crescente durante mais de um século foram atingidos com a mesma facilidade de alvos vulneráveis e desprotegidos.
Toda a emergência econômica de uma colônia de ingleses, todas as vitórias de uma cultura que conquistou a hegemonia internacional, todo o poderio consolidado de uma política pragmática que se injetou nas negociações e nas relações comerciais e estratégicas humanas, estavam espelhados nas estruturas das composições arquitetônicas atingidas, o World Trade Center e o Pentágono. Estes edifícios eram a demonstração de que o milagre americano foi possível e se realizou. Agora, aviltados, vilipendiados, agredidos, demonstram a erosão de um sistema, contestado até as últimas conseqüências.
Neste momento histórico ímpar, tem-se uma tragédia que inaugura o século XXI, século da globalização, da internacionalização das relações mundiais, de consolidação do mercado europeu e do mercado comum inter-americano... século que vem precedido pelas promessas de reajustamento das relações humanas e de esquecimento das experiências negativas passadas. Acreditava-se no epílogo de uma história que, em verdade, sempre se realizou como um melodrama. Seria este o século que daria a virada sobre um século de hostilidades internacionais, de guerra fria, de acúmulo de capital, de tragédias econômicas, de escândalos políticos, de injustiças sociais...
No entanto, como num passe de mágica, reabrem-se feridas não cicatrizadas do passado, reabrem-se discussões sobre questões que permaneceram sem solução no passado. Verdades constantes na história da humanidade se reiteram: onde mora o unilateralismo e a fé cega, o sectarismo e o fanatismo, moram a intolerância e a obscuridade do juízo. Nem as experiências da Santa Inquisição e as mortes derivadas de seus nefastos julgamentos, nem o anti-semitismo nazista, nem as vidas ceifadas pela bomba atômica parecem ter sido suficientes, até o presente momento, para modificar o espírito humano, substancialmente egoísta e intolerante.
Realização de profecias ou não (de Cristo a Nostradamus), fato é que aqui está estampado o clima de intolerância em que se vive e em que se tem vivido até o presente momento. À mostra, e, à flor da pele, ainda estão as paixões vis do espírito humano. Que Gandhi não nos ouça, mas a não-violência parece um sonho irrealizável. Em evidência estão as experiências que comprovam as desconfianças dos filósofos (de Platão a Santo Agostinho, de Aristóteles a São Tomás de Aquino, de Hobbes e Rousseau a Ralws, de Kant a Hannah Arendt...) e dos analistas sociais.
Esta é mais uma prova de que a evolução material e tecnológica da humanidade não foi proporcional à sua evolução moral e comportamental. Rever conceitos, reexaminar modelos de comportamento, eis o que é emergencial, com vistas ao exercício ético das relações humanas, à garantia dos Direitos Humanos, das Relações Internacionais e à real tolerância entre as nações.
Comemorações de uns, lamentações de outros, miséria da ética. O projeto da humanidade se torna dia a dia mais inviável e insustentável, se carente deste longo processo de reavaliação e reconstrução dos valores humanos, que deveria ter-se iniciado desde longa data.
São Paulo, 11 de setembro de 2001.
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Dr. Eduardo Carlos Bianca Bittar. Doutor pelo Departamento
de Filosofia e
Teoria
Geral do Direito da Universidade de São Paulo
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